Teste ABX vs efeito Placebo – A verdade surda e crua!

02-01-2011 02:25

 

Quem anda nestas coisas do áudio há alguns anos, dificilmente terá escapado às afirmações a “pés juntos” de como o cabo X introduziu uma diferença gigantesca no som, ou como o leitor de CD Y toca muito melhor do que o Z devido ao facto do transporte ser muito mais estável.

 

 

Não contestando o valor destas afirmações, também não deixa de ser um facto que muitos reputados audiófilos e “opinion makers” ouviram diferenças dramáticas…

…que nunca existiram!  (Que o digam os ´"Golden Ears" que fizeram o famoso teste do honesto e falecido designer de colunas Sr. John Dunlavy)

 

Qualquer apreciador de café (no qual eu me insiro) prefere beber um expresso numa chávena do que num copo de plástico. O sabor e qualidade do café parecem ser totalmente diferentes, mesmo quando saem da mesma máquina e ao mesmo tempo.

 

O mesmo se aplica a outras situações como quando se leva o carro à revisão e ele sai de lá muito mais “afinadinho e a puxar melhor”, quando na realidade só mudou o óleo do motor!

O poder de sugestão do nosso cérebro é gigantesco, e aqui entram as diversas análises que podem ser feitas.

Se estivéssemos a falar do automóvel, poderíamos fazer um teste de potência em banco do “antes” e “depois” da revisão. Claro que haveria alguns factores a controlar antes (como as temperaturas ambiente, de admissão e do motor), mas o resultado final do gráfico (quer no formato das linhas quer em valores finais) dir-nos-ia se realmente a mudança de óleo do motor originou as diferenças que se “sentem”, ou por outra, se elas realmente existem ou são fruto do efeito placebo.

 

No caso do som, apesar das medições serem mais precisas do que o ouvido humano, nem sempre é possível estabelecer uma relação directa entre o ouvido vs os dados analisados, até pelos diversos parâmetros possíveis da análise (frequência, fase, etc).

 

Quer isto dizer que é impossível de verificar a existência ou veracidade dessas alterações?

- De modo nenhum!

 

A única coisa que temos de eliminar da equação é o efeito placebo, e para eliminarmos o efeito placebo temos de eliminar o conhecimento de quem está a fazer o teste.

Apesar de ser um teste “cego”, não há necessidade de vendar os olhos de quem faz o teste ABX (isso até seria desconfortável), mas sim de eliminar a possibilidade de o mesmo saber qual é o equipamento que está em teste, após a audição informada da configuração A e da configuração B.

 

O exemplo prático utilizado num cabo é algo tão simples quanto isto:

- O indivíduo que faz o teste (vamos chamar aqui os tais audiófilos reputados e “Golden Ears”) ouvem o sistema (que eles podem escolher) com a música que escolherem, primeiro com o cabo A e depois com o cabo B, onde facilmente identificam (alegadamente) as diferenças.

 

Esta é a parte “AB” do “ABX”.

A parte do “X” consiste no condutor do teste fazer a alternância de cabos enquanto os tais audiófilos os identificam numa folha de papel, e isto repetido por um número de vezes significativo (ainda que não tenha de ser seguido), de forma a eliminar o efeito “totoloto”.

Vamos ter bem presente que estes audiófilos identificaram diferenças grandes e específicas entre os cabos quando sabiam quais estavam a tocar, pelo que facilmente as identificam sem ter a informação do que está a tocar, afinal estão a ouvir

 …ou será que não???

 

Aqui reside o busílis da questão.

Os audiófilos recusam-se terminantemente a fazer este tipo de teste, porque se alguma coisa vai demonstrar é a sua própria capacidade de análise auditiva, e pior ainda, as avaliações anteriormente feitas de forma tão concreta.

Nenhum audiófilo terá receio de fazer um teste ABX entre um rádio despertador de 10 euros ou um sistema de som 5.1 de 1000 euros (pois essas são diferenças óbvias e fáceis de ouvir), mas aqueles que mais alimentam polémicas (e alguma banha da cobra, diga-se) já são outra história!

Surgem sempre aqui as desculpas mais filosóficas do mundo, mas a realidade é tão simples quanto o ouvir ou não ouvir, e se um componente (seja um cabo ou qualquer outra coisa) tiver características dignas de tecnologia espacial da NASA mas não produzir um resultado que seja audível num teste ABX (que é o mesmo que dizer que ou é audível ou não), então esse componente de nada vale, sendo mais um objecto de do que um componente de um sistema de som de elevada qualidade.

 

É claro que a fé é importante na vida, mas não podemos negar que é mais interessante ter uma previsão meteorológica baseada em factos e análises do que basearmo-nos na dança da chuva!

Por isso, antes de gastar 500 euros no próximo cabo de interligação de coluna com aspecto de mangueira de abastecimento de um fórmula 1, não se limite a ver a diferença, porque ele tem como função permitir que o sinal passe para que se oiça música, e não tanto a função decorativa.

 

É importante ter a noção de que as diferenças audíveis entre equipamentos (por vezes aparentemente similares) existem.

Mas reforço a palavra "audíveis", mas se são audíveis, então devemos ser capaz de fazer aquilo que os Ingleses chamam de "put your money where your mouth is", que eu adaptaria para um Português casual de "põe os ouvidos onde tens a boca".

 

Eu não sou (de forma nenhuma) isento ao efeito placebo, e um Leitor de CD's de 25 kg, ligado a um conversor DA de um calibre idêntico, passando por amplificadores enormes e com ar de serem capazes de gerar bastante potência com qualidade a alimentar um par de colunas, com tudo ligado em cabos de características aeronáuticas é altamente sugestivo de que o som está em plena forma...

...e é por isso mesmo que sou um adepto e defensor do ABX.

 

Ouvir com os ouvidos e não com os olhos.